A primeira borrifada de Khamrah é canela — canela seca, apimentada, com noz-moscada logo atrás e um fio de bergamota que dura pouco. Essa abertura costuma assustar quem espera doçura imediata: nos primeiros dez ou quinze minutos ele é mais especiaria que sobremesa, e há quem ache o começo áspero. Vale esperar.
Passada a meia hora, a tâmara entra e muda o perfume inteiro. É uma doçura escura, de fruta seca, apoiada no praliné e na tuberosa, que nunca chega a virar açúcar de confeitaria. O fundo é onde ele se resolve: baunilha, tonka e amberwood dão o lado cremoso, e a mirra com o benjoim colocam um véu levemente esfumaçado por cima — é esse véu que impede o conjunto de enjoar. Da terceira hora em diante, Khamrah é tâmara com baunilha e um resto de canela, denso e de perto.
Desempenho é o argumento mais forte dele. Os relatos convergem em 9 a 11 horas na pele com quatro borrifadas, projeção forte nas três ou quatro primeiras horas e rastro ainda perceptível por volta da oitava; na roupa passa de um dia. Não é perfume que peça reaplicação — é perfume que pede moderação. Duas borrifadas resolvem em ambiente fechado; quatro é dose de rua.
Onde ele brilha: noite fria, jantar, inverno, ocasião em que ser notado faz parte. Onde ele não cabe: calor úmido, escritório fechado, reunião de manhã. O mesmo peso que o torna aconchegante em julho o torna sufocante em janeiro.
A comparação com o Kilian Angels' Share é justa até certo ponto — os dois dividem praliné, canela e a mesma vocação de sobremesa alcoólica —, mas a estrutura difere: Angels' Share é conhaque e praliné, Khamrah é tâmara e praliné, mais seco na canela e menos licoroso. Não é para quem foge de doce. Se gourmand te dá dor de cabeça, este é a definição do gênero e não vai te converter.
Inverno e frio, noite, jantar. Gourmand adocicado de tamaras e canela.
Nao e clone exato, mas divide o DNA de Kilian Angels' Share. O best-seller absoluto dos arabes gourmand.

